segunda-feira, junho 26, 2006

o rubro mártir de pregos

Foi nas brincadeiras de criança que Mohammad Hilu aprendeu a amar Alá. Uma cambalhota aqui - um beijo no alcorão, acolá. Três pulos lépidos na educação física - três Al Auákba balbuciados no descansar. Para achar os escondidos da cabra cega de lá - era o entoar dos cântico Al AcQsa de cá.
Cresceu adorando Alá e seus ensinamentos proverbiais. Aprendeu que o paraíso é possível e existe por sobre as cabeças dos merecedores da glória - e a escolha de adentrá-lo é meritória empresa afeita somente aos fortes. Um busto em praça pública leva o salvador do islã que não pestaneja ao prescindir da existência. Decidiu, então, que seria mártir e nada alteraria as já traçadas linhas de sua vida. Sua missão nada mais era do que honrar o sagrado livro ismaelita acima das prêssegas borras de café do fundo da xícara que lhe anunciavam vida longa.
Sapatos novos imaculam os passos sangüentos no céu em dia de subida. Libertação pelo corpo acinturado de bombas. E antes de empreender o ardil, a genitália jamais deve ser esquecida de se enfaixar com gaze antes de lançar-se os ares. E pregos, muitos pregos consigo. Setenta e duas virgens esperam o mártir que não conhece os negaceios dos que têm dúvidas.
Cidade santa, o sonho acalentado de todos os seguidores da Jihad. A Jerusalém multiétnica é redenção idealizada em dias das brincadeiras infantes dos que sonham em ser heróis.
As gazes haviam há muito na gaveta. No armário, sapatos novos para um dos casamentos mais próximos. Na cabeça, a kafia envolta em planos ainda incompletos por detalhes ínfimos. Para a libertação na subida, sabia que crivar peles era o de menos. Mas faltavam os pregos.
Na manhã de quinta-feira decidiu que era o dia clandestino. Viajou como doente transpondo a barreira de Gaza em ambulância do Hamas. Ao chegar em Jerusalém desceu à avenida Ben Iuda, entrou em uma ferragem para comprar três sacos de meio quilo de pregos. Em cada porção da indumentária com divisórias adredes, os dispôs diligentemente. O cinturão de bombas enfeixou por sob as roupas sobrepostas . Caminhou à estação de ônibus escolhendo a linha dos jovens estudantes. Leu mais uma vez o Corão, enfiou-o no bolso às pressas e subiu as escadas com uma convicção inabalável que lhe deixava os olhos estáticos no nada. Posicionou-se ao centro do veículo sem se ater aos poucos lugares ainda vagos . Gotas de suor sudavam-lhe a testa e sentia um frio que vinha de dentro da sua alma.
Três estações após a partida decidiu mostrar ao mundo a sua causa. Escolheu o momento exato como imaginara nos esboços da véspera - em frente as lojas da avenida principal. Nesse momento já não sentia mais o frio, apenas o desejo de liberdade em frente às vitrines da cidade.
Antes de ônibus ganhar movimento dianteiro vociferou :
- Al Auákba! sacando o pino ao estopim. Entre o istmo do barulho e o depois - o caos - o tudo apocalíptico, o inexplicável mar vertendo sangue em córregos. Mar vermelho corrente no chão de pedra. Vitrines lavadas de rubro cólera na cidade santa. O sonho de Mohammad em meio a fumaça da explosão. O frio de sua alma agora era o fogo junto aos pedaços de carne incrustradas por pregos que jaziam na calçada junto a muitos livros. Escalpos e vísceras no asfalto, mochilas jogadas em meio aos destroços e a lataria do ônibus estourada cuspindo poucos corpos ainda vivos.
O mar vermelho abriu-lhe passagem por entre os gritos horrendos dos passantes e luzes das sirenes. Na calçada, jazia ao lado do livro sagrado, Mohammad. Semi-nu, de pele queimada e com o desfacelado rosto molhado na pastosa poça de sangue. Uma armadura humana coberta de pregos. Apenas o gaze intacto. As escassas gotas trazidas pela rala chuva tingiu o chão. E no chão, ondulando as folhas ao vento , o alcorão, cada vez mais cobre.

6 comentários:

mãe cecily disse...

minha filha, sim senhorita, estás melhorando.
acho que levas jeito. estou orgulhosa de ti.
mummy

Andreson Dias disse...

uma realidade do Oriente Médio atravessada de neutralidade, Ms. Nisemblat. Interessante posicionamento de deixar-se narrar.

Anônimo disse...

estupidamente real esta triste e cruel história. Ass: Mr. Fabio.

Minuano disse...

Por trás da mascara de fanatismo do "mártir" islâmico se esconde um mundo que nem os que contam com sua morte se interessam, e que nem os que são mortos por ele querem ver... O mais triste é que é justamente esse seu lado escondido o que ele tem de melhor a oferecer ao mundo...

Anônimo disse...

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Anônimo disse...

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