quinta-feira, junho 29, 2006

lágrimas por Marias

O despertador tocou dissipando todos as sensações amargas da noite que se foi. Alcácer Quibir, meio ereto, mas ainda cambaleando, apoiou-se na borda da cama vestindo o seu robe de pelúcia antigo. Esticou os lençóis varrendo a saudade, que, como farelos, espetou-lhe os sonhos durante a madrugada. Viu leves movimentos na rua e então, dirigiu-se ao criado mudo, encheu a mão sobre a superfície do móvel colocando no bolso um punhado das muitas balas que lá haviam. Caminhou arrastando os chinelos até a porta da sacada e deteve-se nas crianças que brincavam num louco vai-e-vém. Mirou nos postes de luz os costumeiros pássaros equilibristas daquela mesma hora de sempre, crispando os olhos desabituados à luz matutina. Chamou-lhe atenção pelo revezamento de cores o tecido xadrez do vestido de uma menina que brincava conversando com seu urso sob o arbusto da entrada do prédio.
Esboçou um sorriso enferrujado a ela, encontrando, meio de súbito, a solução para a insuportável dor da saudade vivida depois que Maria Morena se foi. Fazendo gestos lentos com as mãos, comunicou-se com a menina de tranças que balbuciava ternuras com o seu brinquedo. Alcácer através da cadência ondulante dos dedos a girar entre si, propôs uma troca. Sua voz não saía. Tentava, emergir sons de dentrode si, mas nada saía. O mundo havia amanhecido mudo e era o dia das palavras desnecessárias; e por isso, a menina esforçou-se em entender o que o desejo aprisionado de Alcácer não conseguia dizer com os lábios. Ela fez menção que sim, que aceitava aquilo que ele propunha, baixando e levantando o pescoço em um intermitente movimento assinte de cabeça.
De repente, Alcácer arrancou a própria cabeça do corpo e lançou-a por entre os galhos secos junto às balas azedinhas que estavam em seu bolso . Tudo vôou muito rápido ao colo da pequenina menina. Ela recebeu a si os objetos, guardando as balas como tesouros na bolsinha atravessada ao corpo e enamorou-se perdidamente pelo rosto de anjo triste que em seu colo buscava aconchego. Abriu delicadamente mais os olhos da cabeça, ajeitando os cílios de modo a dar às pálbebras forma de trombinha de borboleta. Mas os olhos insistiam em se fechar. Então, sob um enorme esforço indizível, quebrou o silêncio conseguindo murmurar algumas palavras em um sussurro ao pé do ouvido de Alcácer:
- Maria, meu nome é Maria Naremo. E os olhos da cabeça começaram a verter lágrimas. As lágrimas eram de um azul muito azul da cor de mar e começaram a tingir o colorido do vestido. Na comoção que não cabia mais no coração de Naremo, arrancou a cabeça de seu urso, lançando-a diretamente às mão de Alcácer que, sem rumo, ainda estava na sacada.
Naquele instante muitas coisas mudaram. O gesto de Naremo fez com que ele pudésse sentir muitas outras tantas de novo. Com a cabeça de urso entre as mãos, Quibir sentia que havia conquistado algo novo, diferente de tudo e com um delicioso sabor de infância. Colocou a cabeça de urso em seu tronco e sentiu um enorme desejo de se lambuzar de mel. O amargo da saudade de Morena agora era desejo mais intenso de mel cristalizado na boca de um novo Alcácer que nascia com novos olhos. E sentou-se na cozinha a lamber um pote de mel.
Naremo ainda sentada lá em baixo penteava os cabelos da cabeça chorona de modo a fazer-lhe penteados marítimos dos reis dos mares. Depois de enrolados os caracóis nas melenas do brinquedo, pegou o lápis da bolsinha e começou a fazer-lhe desenhos de ondas no rosto. O xadrez colorido intimidou-se com as tantas lágrimas vertidas e subiu para o tronco. O vestido de Maria estava agora diferente - todo azul e brilhava muito, como diamantes puríssimos em uma linda sereia que brincava molhada em baixo da árvore.

5 comentários:

pri disse...

tuuuuuuuuuuuuuuuuudo!!!
mari, tu tem que escrever um pouco menos...

esses teus textos estão muito compridos pra blog, guria!!!!!

Anônimo disse...

Estive por aqui e consegui viajar por esta Maria. Achei emocionalmente lindo. Estranhemente lindo, uma linguagem de criança misturado com a idéia da solidão e da desesperança. Bem lindo mesmo. Teus textos tem uma meiguice litarária, uma leveza, algo como uma profundidade suave. Doeses homeopática de um veneno escorpiano. Avante garota, tens muito talento. Talento para perceber a vida acima de tudo. Bjs Mi.

Anônimo disse...

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Anônimo disse...

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Anônimo disse...

I like it! Good job. Go on.
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