
bom dia, morcego. já é hora de dormir. o ar matutino começa a enrigecer as tuas asas e obstruir o sonar. e quando a aurora rompes, são as fendas das cavernas que estão estreitas para entrar.
apartados foram os amigos-cúmplices por serem espécimes de morcegos inimigos. foi feitiço. feitiço forte de muralha protetora da terra santa. a vontade de voar juntos resiste, agora atravessada por um muro. um murro no muro - eles ainda querem voar juntos. e voam - na distância das vidas paralelas, quando um é sol, o outro é lua. mas ainda estão juntos. encontram-se a cada novilúnio, em breves intervalos do amanhecer. porém, o súbito descompasso das asas não deixa prosseguir a cadência. o morcego tem as vistas feridas pelos raios vindos da quinta grandeza estrelar e, cada vez mais, é difícil continuar o breve encontro no ar que espalha o ar.
- não seduz nem consola essa inércia abandonada - o alembrar das coisas tantas lá de trás, ou ver o agora de nós - o brando sossego, enquanto as árvores crescem, as águas correm e as vidas nossas simplesmente passam sem chegar. assim vivemos. assim estamos - num estar separados juntos.
não mais à mesma colônia pertences, e teu segredo, é que buscas outra a cada troca de luar. eu sei. eu sei desde um tempo em que voava rasteiro sob a lua. mas mudei o eu voando o breu. o escuro e as asas implumes no inverno não mais em mim estão. agora o tudo de antes são penas de um livre colibri tropical. não mais vejo estrelas e corpos celestes empoeirados. nuvens fofas e deslizes por sobre o mar é a nova vida. meu mundo novo, nem melhor nem pior - apenas distante das corujas.
apartados foram os amigos-cúmplices por serem espécimes de morcegos inimigos. foi feitiço. feitiço forte de muralha protetora da terra santa. a vontade de voar juntos resiste, agora atravessada por um muro. um murro no muro - eles ainda querem voar juntos. e voam - na distância das vidas paralelas, quando um é sol, o outro é lua. mas ainda estão juntos. encontram-se a cada novilúnio, em breves intervalos do amanhecer. porém, o súbito descompasso das asas não deixa prosseguir a cadência. o morcego tem as vistas feridas pelos raios vindos da quinta grandeza estrelar e, cada vez mais, é difícil continuar o breve encontro no ar que espalha o ar.
o pássaro empresta-lhe, então, um dos seus olhos para que juntos possam ver a aurora nascer no mar. um novo panorama da vida preenche a retina do morcego e, ao vislumbrarem juntos o bravio atlântico, o colibri entôa a voz:
- não seduz nem consola essa inércia abandonada - o alembrar das coisas tantas lá de trás, ou ver o agora de nós - o brando sossego, enquanto as árvores crescem, as águas correm e as vidas nossas simplesmente passam sem chegar. assim vivemos. assim estamos - num estar separados juntos.
bom dia, morcego. já está quase na hora de dormir. aqui é o outro mundo onde teus olhos notívagos necessitam de acalento às pressas com compressas de romã. não existem româs onde o atlântico vem banhar. quero entoar um cântico com voz de fada que exale um hálito balsâmico e, ao cantar, atenue o emaranhado de pensamentos noturnos nascidos na caverna fria que deixaste. mas não há tempo para cantorias. não há. ela ficará apenas na vontade. já está quase na hora de te ir. deixo-te. vôa pra lá, só não esqueça: eu falo a tua língua, mas aqui é difícil de entender. as cortantes ondas sonoras de ti são como fios de lã de escondidas pontas enleadas. me diz, me diz como, como então desenlear? se não há tempo!
agora é tarde, morcego. não há nada que se possa fazer. vai-te.
bom dia, amor cego, agora é hora de dormir.