segunda-feira, outubro 09, 2006

feia?


a caveiruda se rebocava. de meia em meia hora ia ao espelho rebocar a bocarra de um batom cor de lama. depois de besuntar bem os beiços esperava a escuridão da boate transformá-la em cinderela de fábula. assim, amanheceu o dia e a carruagem não veio. a vontade de ser uma bella donna ficou perdida no vapor da noite esgotada. agora, ela descia as escadas do inferninho, meio torta e acompanhada do etílico caminhar que se expandia para os lados, batia descompassada na laje, os sapatos pintados de caneta hidrocor. o sol dourado batia em seu rosto de esfumaçado colorido, que borrado, revelava toda a fealdade que o breu da noite escondeu.
mas faltava pouco para anoitecer. em pouco tempo ela novamente se esconderia feliz em meio às sombras necessárias à sobrevivência dos rejeitados. era inverno, o dia durava menos e isso lhe fazia um enorme bem que se bastava. depois do mágico batom-lodo aplicado, dançaria nas nuvens vaporosas do gelo seco. tudo ficaria bom novamente, e a ilusão do escuro seria a sua maior arma contra todos que não a olhavam.
a feia não era feia, mas ela precisava das sombras para se transformar.

10 comentários:

Leonardo Raimundi disse...

A doença eterna do ideal

A beleza é um dom dado a certos raros olhares
o ideal, um autismo na decadência dos olhares comuns que só fitam os mesmo lugares...comuns!

bjo - é sempre um desafio ler vc
;)

Anônimo disse...

aum. a feia não era feia. foi tudo uma armação!

alejandro borba disse...

que massa o teu blog!
é bom.

Anônimo disse...

texto assaz curioso,e que me suscita o seguinte raciocínio: admitindo que o homem é ele e a sua circunstância,pergunto: haverá outros homens que são tão desprovidos, que nem circunstância têm?

Josué

mari disse...

as antíteses.. josué e suas antíteses... mas desta vez não haverá como conciliar as duas.

o homem sempre estará envolvido em alguma circunstância, por mais que a aparência e toda aconfiguração da cena aponte para uma possível estaticidade situacional.

aí entra a circunstancia interior... além do objeto narrado...

MAÇA VERDE disse...

NEGA...
A FEIA NAO ERA FEIA MAS SE ACHAVA FEIA...FOI ISSO QUE ENTENDI
E OUTRA COLOQUEI ELA LA NAQUELE BOTECO QUE ERA O BAR DO JOAO? LEMBRA "O BURACO NEGRO" TU LEMBRA?
POIS EH COLOQUEI ELA LÁ...NO MEIO DAQUELE GELO SECO QUE ENTRANHAVA NOS CABELOS PIOR QUE A FUMAÇA DO CIGARRO QUE EU FUMAVA...
JA ME SENTI UMA BONITA FEIA OU UMA FEIA BONITA NO MEIO DAQUELA FUMAÇA...E TROPEGA DE LEITE DE ONÇA NA CABEÇA...ME SENTIA UMA divA (BEM COMO A PESSOA CITADA- FEIA?)MAÇÃ VERDE DEFUMADA POR GELO SECO...RSRSRSRS
amotesiempre

priscila mendes disse...

inquietante atmosfera...

mari disse...
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mari disse...

maçã verde,

que bom que conseguiste entender esse conto que pari em exatos 28 minutos no afã máximo de atualizar o blog no início de uma manhã de segunda-feira blã.
a feia...
a feia.
a feia é o resultado de muitos eus fundidos em uma única personagem. subjaz a idéia (acho) de que a beleza é relativa... e sei lá... sou péssima em análises, sou péssima aluna, sempre fui. apenas sinto as coisas e fico extremamente satisfeita em saber
que tu, uma peça chave da minha existência, tenha compreendido uma das tantas essências nessa narração à tacape.

"amotesiempre", minha peça-chave do quebra cabeça existencial.

mn

MAÇA VERDE disse...

bjo mari...
amotesiempre
rsrsr