quarta-feira, dezembro 02, 2009

grito de gaya


Por incrível que pareça, assim se passaram quatro meses da minha vida - entre diárias e insalubres baldadas de café colombiano, leitura ininterrupta na sala até afundar o sofá no canto da luminária; enquanto em outros dias, menos gélidos do que esse julho tapa-na-cara, a inclemente chuva descia ladeira abaixo da rua do meu edifício. Não sei como pude. Eu me prestava, aliás, eu tinha de - saía de casa de chinelo, guardava sapatos secos e outra muda de roupa numa bolsa e então, quase levada pela correnteza, eu encarava o batente não sei com que coragem ou se por boleta. Porém, como o tempo – esse mano, pai, padrasto, bisavô, melhor amigo da infância que eu nunca mais revi - desliza sem atrito, tratou logo de seu encargo floral - despontou, em final de agosto, os primeiros sinais primaveris, que, ufa! finalmente não tardaram em chegar.
Alguma coisa, oras, tem de mudar! Troquei o lado de sofá; sim, fiz esse esforço para diluir o gato louco, de fixidez de superbonder que sou e resolvi ir mais pro lado, deslocar o meu peso, que aumentou em seis, na outra espuma, do lado esquerdo e ... nossa! como pode?! com apenas uma almofada de distância tantas coisas modificar?
E, com essa ânsia de ver, de viver o novo, mesmo que seja a uma bundada de distância da velha e boa almofada enxovalhada, dias amenos vieram – e redundou ele... todo mágico -, num explodir colorido de emocionar até andróides desativados.

Esse ano de 2009 foi um ano à parte - sofri muito com o inverno mais rigoroso da minha existência, pois a estufa não bastava para preencher o frio que mais parecia o grito de um morto, um morto que não sabe estar morto e mais do que nunca está apegado a sua vida, e nem adianta esconjurar! ele não entende que já morreu porque quer ficar! quer viver! quem não quer?!
Agora tu entendes esse meu frio? Foi duro; ainda com o céu cinza, um cinzento deprê esmaecido do final de tarde, ir me recolher mais cedo, (que sensação horrorosa, não queiram saber; só sabe mesmo quem é gaúcho) para passar o frio que era uma aberração desalmada, vingança irada lá de cima, vá saber.

Depois de muito praguejar e, inclusive, infantilmente escrever não só em twitter da vida, na agenda, no vapor do banho e até com a caligrafia mal ensaiada - "vai embora frio, eu não te agüento mais", para, jamais em vão! tentar exorcizá-lo, - dias de inclemente chuva e temporais furiosos nunca vividos em décadas vieram para varrer a ponta boreal do meu país. Triste. Muito triste. Pensei que as ruas ficariam nuas. As árvores precisavam de ganchos fortes naqueles momentos de tormenta. As sexagenárias do parque, paineiras de tronco amazônico, ipês roxos foram arrancados, - assim - em apenas poucos segundos de um sopro insano.

Bem, esquecer não dá; contudo fica a mágoa dessa voragem, - clareiras abertas a ferro e vento, deixando raízes cuspidas, imensas árvores sem copa, buracos esbugalhados sem dó, agora a esperar por novas mudas. Pelo menos, hoje, a chuva está cálida lá fora, sempre dando o ar da graça -, dia sim, dia não, permitindo ao verde desbotado do ano passado ser um escuro fosforescente, seja na grama fofa ou nas heras da parede e... que bom, mais um ano da minha vida e as azaléias ainda estão nascendo, tímidas, como sempre, essas feministas de pendor real! já despontando, as sem-vergonhas, os seus primeiros botões, para, tchãn-tchãn-tchãn-tchãn! num súbito, (como se eu já não conhecesse os seus ademanes sedutores) exibir cãn-cãn com suas saiotas rendadas; ah, claro, estou sempre de olho, elas são meu melhor marcador botânico. Lembrei! capricórnio chegando. Amigos! Amigos tantos! Eu os amo no meu silêncio.

4 comentários:

mariana nisemblat disse...

ninguém tem saco para ler, em blog, texto longo; eu não tenho; mas, pelo menos eu treino aqui algo que está prestes a enferrujar; ah, mas eu não deixo; há de se jogar ferlicom no hábito que vai pendendo pro simples, pro clique rápido, pro retorno a curto-prazo;
escrever é fazer ginástica, ginástica solitária e neuronal; e há de se ter disciplina! se não... bau-bau.

ane disse...

eu tenho pouca paciência, mas a curiosidade é maior, portanto.
bah, tchê, tu traduziu a crueza desse inverno muito bem. foi sofrido demais. lembro do meu amigo Tiago ( que tem pavor da estação) dizer que já chorou de frio. devo estar na primavera da vida, vai ver, mas, pela primeira vez, to curtindo essa. the heat of the sun, nós ainda estamos longe de Mrs Dalloway (saudade).
capricórnio chegando! to chegando! meu inferno astral até que tá suave. que bom. rumo a idade de cristo também.
gosto tanto do jeito que tu escreve.

Anônimo disse...

Um pot-pourri de funduras e fundaços. Sempre na carne das coisas e dos tempos.
Cuidar das palavras que se afligem ao estar fora de seu nicho, ou as que não precisam de repetição.
Gostei.

Véia do Saco

Anônimo disse...

véia do saco, nem vem que eu adoro repetições.



mn