domingo, julho 22, 2007

antes de ser depois



a perda. a perda de que falo é a privação da presença, do calor outrora tão bom. e em meio ao malogro de estar viva, entre o vagido do amargo soluço e a busca de um bálsamo curador, surge, lá de dentro do dentro, algo em mim. uma imagem. a salvadora imagem de um botão. um simples botão que apareceu para me salvar da dor de ter os pés no mundo. basta apertá-lo.
entre as tantas e tantas imagens que rodam na minha cabeça, a essa bendita, que agora está em minha mente, eu me agarro com toda força possível para então sobreviver. de chofre, e o mais rápido possível, eu começo a sonhar. a campanhia do botão CTRL Z aparece atrás das minhas pálpebras.
eu posso. eu quero. eu vou apertar esse botão. um barulho começa a soar fininho dentro do meu mundo recém criado.


após a pressão do dedo sobre a saliência da peça, a vidaaaaaaaaaaaaa voltaaaaaaaa. as coisas todas que estão lá na frente vão voltando para trás. e o insólito nunca foi tão bem-vindo em minha vida. bendita seja a campanhia do botão. o antes, tudo aquilo que já foi, reestabelece-se ao seu toque. e assim como uma planta com raiz pendente é colocada à terra, o pedaço arrancado de mim é colocado de volta ao seu lugar. na lentidão das mãos desabituadas a enterrar, areia sobre areia, o buraco aberto vai sendo tapado. um alívio percorre o corpo. começo a sentir as coisas acomodaram-se, e de volta, tudo aqui, intocável de novo.




olho em derredor e vejo o pó flanando das superfícies à luz, os livros de muito tempo na cabeceira, agora na prateleira, as pombas de outrora, envenenadas pelo louco, arrulhando na minha rua, avisto pela janela pássaros voando de ré entre as nuvens, os algodões da Paineira, no chão da Protásio Alves, voando rumo ao cume das copas, e sons lá de longe - vozes alegres entremeadas aos chamamentos carinhosos e aos grunhidos felinos de quando ela vinha saltando no ar e fazendo os seus barulhinhos. tudo isso está novamente perto de mim. que alívio reconfortante traz essa campanhia mágica. ameniza-se a dor. e viver depois de seu toque é sair por aí sem olhar o relógio irrevocável do tempo.



ela não está. ao mesmo tempo está, ali, me olhando, porém não consegue mais expressar o esplendor daqueles dias de brincadeira. o corpinho está sem calor, e minha tristeza verte em mar sem-fim ao ver os olhinhos em meio palmo me olhando e, por debilidade, mexe apenas uma orelhinha como reconhecimento do meu rosto.




é, eu sei. é a hora da despedida. a gente pode ver. não precisa dizer nada. o silêncio sempre foi o intermediador maior do entedimento. uma porta lá longe, em um outro universo, está sendo aberta; agora vais poder continuar dando teus galopes no ar, bem atrás daquela porta que se abre para ti, minha Punk querida.


5 comentários:

Fábio van der Halen disse...

Mari,
foi uma fatalidade... uma dor imensurável... uma triste coinscidência de ocorrer na semana de Tisha be Av (9 de Av).
O mais incrível é que A DOR ENSINA A ESCREVER...

mari disse...

Fábio,

a dor é a maior das mestras. deixa a casca do espírito mais grossa por fora, no entanto, pelo lado de dentro, mais sensível para percebermos os infindáveis meandros por que se perdem os fios balançantes da nossa vida.

a dor é irremediávelmente inimiga da formosura do viver.

a dor é o ardor de viver.

corramos o risco.

:´(

Anônimo disse...

Passei o dia de domingo como se fosse mais um dos dias anódinos que ando vivendo. Livre e alheia. Estava até evitando de ler o que escreveras para não levantar dor como o fogo levanta o leite fervente na caneca.
Mas tive que vir ao teu íntimo e nle revisitar nossa gatinha. Vívida meiguice. Redeviva.
Como o Fabio diz: a dor ensina até a escrever melhor. Não sabia que esta é a semana de Tishá be Av. Estranha coincidência.

Um beijo, minha linda,

Mumy

mari disse...

Mummy,

escrever com dor, é escrever virada do avesso. assim como um gomo de bergamota e suas infinitas garrafinhas de suco espetadas para o lado de fora.

um trabalho deveras difícil e, que, confesso, ajudante-mor a mitigar a dor, a livrar o corpo das toxinas a que fatalmente estar vivo, implica.

escrever é ver a morte mais próxima ainda ao trazê-la à superfície da vida; e o incrível, é que mais-mais-mais de perto ainda, ao falar em letras sobre a vida, posso trazê-la mais intensa e pungentemente sentida.
paga-se um preço, bem sabes disso, mas depois, sabe o que eu percebo?

todas aquelas coisas ruins, tristes e dolorosas vão sendo minorizadas através do caminho de ontem, agora e acho que de sempre da minha escrita.

as coisas ruins são derrotadas pelas palavras, que, apriori, estavam sob o jugo da dor; mas, como sempre, há em meio, um truque. tudo truque. porque a filosofia das palavras da saga dos Nisemblat foram aprendidas com Sun Tzu.

passam-se os dias, as águas dos mares dançam no arrasta-pé da maré, os astros alteram-se no firmamento, e enfim, a minha alegria e os bons momentos, lá atrás perdidos, voltam como tesouros mais valiosos ainda.

;)

Léo disse...

"...e minha tristeza verte em mar sem-fim ao ver os olhinhos em meio palmo me olhando e, por debilidade, mexe apenas uma orelhinha como reconhecimento do meu rosto."

Isso foi tão intenso, tão tristemente intenso, que mesmo há milhas de distância tornei-me empatia contigo e tomei um pouco dessa dor comigo.
Dor Marina-punk, porque dores assim tem nome.

E a vidinha que se foi levou consigo um aroma existencial Nisemblatiano para o além-disso que te vai permitir se orientar em sua busca por ela, na vida além-disso que a espera, Mariana.
Bem atrás daquela porta que se abre para ti...

bjo