
ele, Edwald, depois de três ou quatro frases anódinas, pergunta, descarado, como seu não tivesse nenhum assunto outro a indagar:
" - Cristine, me diga, quem sou eu, quem sou eu para a tua pessoa? "
ao que ela responde, creio, meio embriagada.- Na verdade, essa é uma pergunta que atravessam os séculos, querido.
De Shakespeare a Descartes, De William Blake a Caio Fernando Abreu;
mas a resposta, ao meu ver, que mais veio a calhar ao teu "quem sou eu"
está no livro de Fernando Pessoa. Afinal, ele tem mais de uns 11 eus. Então, dandy, neste momento, deves estar no teu 4º eu. O eu aquele...
que quer escapar da rotina
viver algo novo
intenso
ele, num ímpeto, larga-lhe uma pergunta inoportuna:
- então, eu sou boa pinta?
ela ri, ignora, fingindo não ter escutado a asneira, até porque ele não era nada boa pinta, e ela, uma contumaz diplomata, não gostava de ferir o orgulho dos feios; e continuou a responder:
sentir-se vivo, voltando pras cavernas, e sendo o bicho-homem do qual não pode fugir...
o bicho-homem que quer arrastar a presa,
difundir a espécia num só golpe, ou melhor, em alguns bons golpes.
o 4º Edwald quer ir pro quarto.
há! ela ri, essa foi boa. bingo pra mim. sou muito sincera, desculpa; traz um Martiny e acende meu cigarro...
já pensou, hein?
- no quê? indaga Edwald exaltado.
- nã, não, em nada. então Cristine solta a fumaça, completamente esvaziada de tédio pela burrice da humanidade.